sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Quando aperta, desperta.

Para ler ao som de: Glory Box

"Juro que quando olhei pro relógio me assustei ao perceber que estava atrasada. Precisava chegar no centro da cidade em 40 min, e eu nem arrumada estava. Olhei meu armário, mas nada me chamava atenção, precisava de algo ousado e ao mesmo tempo discreto. Tinha que causar um impacto, mas nada muito chamativo. Optei por um vestido preto simples. Tomei um banho rápido, ajeitei os cachos do cabelo, peguei a chave do carro e desci as escadas correndo.


Sempre que saio de carro atrasada, me pergunto por que não escolhi morar numa cidade pacata, onde não houvesse tantos semáforos e nem carros transitando. Não pegar trânsito em São Paulo a uma altura dessas é impossível. Ta ok, fazer o que se não esperar?
Procurei atentamente a rua indicada no bilhete que anotei. Achei o prédio com um pouco de dificuldade, meio escuro, mas estacionei e tratei de respirar fundo.
Essa noite decidiria uma parte importante da minha vida. Agradar para servir sempre, e sempre. Apenas.

Identifiquei-me na portaria e subi ao 20° andar.
Toquei a campainha e ouvi passos na direção da porta. Era ele.

Marco, 27 anos, formado em direito no Mackenzie, mais uma porção de coisas que eu esqueci enquanto analisava o produto. Ele era alto, tinha a pele clara e cabelos pretos. Olhos castanhos e um cheiro inconfundível: homem.
Adoro homens como ele; alto, de ombros largos, com as mãos grandes e bonitas, nada de dedos estranhos e cheios de nós. Gosto de unhas certinhas e limpas sempre. Mas nem sempre é isso o que aparece.




Aparecem homens de todos os tipos; brancos, morenos -às vezes até demais-, feios, alguns até falando errado, mas é o que garante o meu fim de mês.
Mas esse era especial, era marcante e encantador. Adoro homens inteligentes que não deixam o assunto acabar, e tem sempre algo pra te impressionar. Este sim, eu deveria fazer um serviço completo, e se vacilar nem seria preciso cobrar. Mas não posso me dar ao luxo de deixar passar todo cliente que me encanta. Por isso tratei de ser o mais profissional possível.


Entrei em seu apartamento, cumprimentei-o com um abraço apertado, como se fossemos amigos de longos anos. Amigos-amantes que se matam em noites como estas. Sentei-me e ele me ofereceu um vinho. Por que justo vinho? Aceitei de bom grado, sem frescura. Perguntei como estavam as coisas, os negócios, a vida num geral. Fiquei boquiaberta ao ver o quão perfeito aquele homem era. Por que conhecer ele no balcão de um bar? -Você é simplesmente encantadora, disse-me ele depois de algumas risadas e conversa jogada fora. Marcamos de sair, e lá estava eu.


Conversa vai, conversa vem, e num piscar de olhos estávamos deitados no chão, rindo, bêbados e felizes. Ele me pegou no colo e levou-me para seu quarto.
Em meio a tantas coisas, agonias, afagos, gemidos e risadas, senti que eu não deveria estar ali, não poderia me envolver com este homem, nem profissionalmente, porque existem pessoas que você não consegue separar tais sentimentos. Não sabia se era apenas tesão ou se haveria algo mais, assim que eu saísse daquele apartamento, mas no momento eu nem me importei, minha respiração ofegante com ele a me apertar o quadril, olhei pela cabeceira da cama e vi um retrato dele com a esposa; era uma mulher bonita, de cabelos alourados, lisos e um sorriso perfeito. Eles deviam ser muito felizes. Mas por que pagar para ter prazer com uma mulher desconhecida em sua casa? Onde estaria essa mulher uma hora dessa da noite em plena quinta-feira? Não prolonguei os pensamentos, bati a mão no retrato como que sem querer e continuei meu serviço.




Passado algumas horas, deitados, ele diz que precisava me mostrar umas musicas. Bossa nova e Garota de Ipanema. Odeio essa música. -Coloca um Chico Buarque, ele é fantástico. Disse com uma voz arfante. E ficamos até amanhecer ouvindo Chico Buarque e tomando mais vinho.
Veio o café da manhã, um banho juntos e a hora de ir embora. Eu estava feliz. Despedi-me e entrei no carro apressada. Nem pensei em dar mais umas palavras nem tentar marcar outro "encontro". Sai como se fugisse de algo perigoso, que certo modo era.

Hoje, faz quatro anos que isso acontecera. Nunca mais o vi. Tentei procurá-lo, mas ele mudara para outra cidade. Talvez seguiu o meu pensamento sobre morar numa cidade pacata sem transito e sem crianças bêbadas andando nas ruas num fim de semana.
Será que foi com a esposa? Será que ele ainda está vivo? Será que ainda lembra da moça que conheceu num bar e marcou um "encontro" em sua casa? Ele era tão fascinante, que se perdeu no meio de tantos homens que pagam $250/hora."


Escrevi esse texto pro Kinquilharia. É um texto rápido, incrível, bem escrito. Faz a gente delirar junto.

E você, se gostou espalhe. Hoje é sexta-feira então pode ^^

Um comentário:

Suzana Nacci disse...

Oiie!
Uau! Que texto! Adorei! Parabens, vc escreve muito bem :D
Beijos!
http://art-personalizada.blogspot.com

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